Arquitectura

CASA EM MONCHIQUE

By tiagokrusse | 4 de Janeiro, 2012
ARQUITECTURA – ADAM RICHARDS ARCHITECTS
TEXTO – TIAGO KRUSSE
FOTOGRAFIA – TIMOTHY BROTHERTON

 

A Quinta da Serra encontra-se numa posição elevada no meio das montanhas, sobre um vale escondido no parque natural de Monchique. O projecto desta casa de campo é da autoria do atelier Adam Richards Architects, com sede em Londres. Numa avaliação recente, Adam Richards foi considerado entre os 40 melhores novos arquitectos ingleses.

Os desígnios da equipa de arquitectos foram os de recuperar os bons materiais das ruínas de uma antiga quinta construída em pedra, reconstruir e alargar áreas para um novo espaço de vida. A nova casa, com três quartos, foi criada para ser o retiro de um casal inglês na reforma.

O lugar é caraterizado pela existência de edifícios rurais simples, de tectos inclinados, paredes em pedra e terraços debruçados para uma marcante paisagem de montanha. O casal inglês comprou um edifício em ruínas e sem telhado, com o objectivo de criar uma casa com as disposições dos nossos dias mas que mantivesse o espírito da tradicional quinta contruída em pedra. Pelo facto do edifício estar localizado numa área protegida do parque natural de Monchique, a equipa de arquitectos teve de saber gerir com delicadeza as negociações e autorizações necessárias antes do projecto arrancar.

A Quinta da Serra é uma casa sólida e robusta, pensada para resistir às condições climáticas adversas do local. A beleza das montanhas não esconde o facto da casa estar localizada numa região de terramotos. Os chefes de planeamento de Monchique precisavam de ver sastifeita a condição de que as paredes de pedra iriam ser conservadas enquanto que os inspectores exigiam que o edifício fosse à prova de terramotos.

Usando a planta pré-existente, as paredes em pedra foram reconstruídas numa altura maior e uma nova moldura em betão, resistente aos terramotos, foi colocada entre elas. Os arquitectos alinharam a nova estrutura de betão à parede de pedras e o espaço vazio entre o exterior e o interior foi usado para isolamentos.

A nova estrutura de betão suporta o novo telhado que liga conjuntamente o topo das paredes exteriores. A relação entre o antigo e o novo torna-se visível no hall de entrada, em que uma parede interna surge cortada para revelar a junção da estrutura de betão com a antiga e tosca parede de pedra.

Há uma intenção no espírito desta casa, que ela resultasse uma combinação das sensações apreendidas na sua paisagem envolvente. Todos os materiais de construção foram escolhidos em fornecedores locais. Uma pedra castanha, recolhida no local, foi especificamente escolhida pelo facto de com ela o desenho da casa poder sugerir que a mesma fora escavada do declive. Um granito cinzento, oriundo de uma pedreira da zona, foi usado para as janelas, degraus e uma bancada de cozinha.

O cenário particular desta zona do interior do Algarve foi fonte de inspiração para a escolha de mobiliário, no qual foram utilizadas pedras e madeiras locais que serviram para produzir portas, mesas e estantes. Os arquitectos também  acabaram por desenhar uma mesa de jantar, em carvalho, que foi trabalhada à mão por um artesão local.

 

A impressão deixada pela planta original da quinta foi usada para criar uma nova caixa em pedra, que forma o coração da casa. A caixa cria uma parede interior que une os tectos altos. As paredes internas foram removidas e substituídas por duas faixas estreitas, que formam uma planta em cruz. Esta planta divide o interior em dois espaços de tamanhos diferentes e nos quais foram definidas as áreas de estar, jantar, cozinhar e trabalhar. Estas faixas foram também pensadas de forma a criarem nichos para arrumações, escadas e recantos para equipamentos de cozinha. Há alas brancas que se estendem para lá da caixa de pedra, que fecham os quartos e criam pátios. Os quartos enfiam-se para o centro da casa, numa sequência espacial que funciona como que um espelho da paisagem montanhosa. A casa apresenta uma chaminé com uma escala exagerada, dando ênfase ao simbolismo de uma casa do campo com as suas fachadas expostas à adversidade do clima.

O arquitecto Adam Richards disse-nos que a intenção da sua equipa foi a de construir uma casa que pudesse intensificar a experiência única desta específica paisagem. Foi propósito do seu atelier criar uma espécie de um coração vivo, que retirasse todo o dramatismo da paisagem envolvente. Concluindo, refere-nos que este projecto lhes deu a oportunidade de combinar materiais tradicionais com espaços contemporâneos, permindo alargar as fronteiras da arquitectura numa nova casa localizada numa área de risco em terramotos.